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M&G EDUCAÇÃO


Garotinho arrasa dançando Michael



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 11:25:47 AM
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Livro "Desacordo Ortográfico" quer provocar e valorizar diferenças na língua

Rio de Janeiro, 12 nov - Uma provocação ao acordo ortográfico é como o escritor gaúcho Reginaldo Pujol Filho define a antologia "Desacordo Ortográfico", organizada por ele e que será lançada pela Não Editora, no dia 13, em Porto Alegre.
  • Imagem de arquivo

    Escritor gaúcho Reginaldo Pujol Filho define "Desacordo Ortográfico" como provocação


"A ideia do acordo ortográfico de unificação não vai a favor da literatura", afirmou à Agência Lusa o organizador do livro, que reúne autores como os brasileiros Altair Martins, Luis Fernando Veríssimo, Manoel de Barros e Marcelino Freire, os portugueses Gonçalo M. Tavares, Patrícia Reis, João Pedro Mésseder, Luís Filipe Cristóvão e Patrícia Portela, os angolanos Ondjaki, Luandino Vieira e Pepetela, os moçambicanos Nelson Saúte e Rogério Manjate e a são tomense Olinda Beja, entre outros.

É uma exaltação da diferença, explica Pujol Filho. O projeto do "desacordo" não pretende se opor ao acordo, mas sim provocar e valorizar as diferenças na língua portuguesa.

"Essa ideologia que rege esse tipo de acordo vai contra os escritores, que querem romper, transgredir, que querem trazer uma nova forma, um novo jeito de escrever", afirma o gaúcho. Na verdade, o que se quer é fazer uma homenagem à língua-mãe.

Segundo o organizador da antologia, as discussões econômicas têm o pensamento de unificação "de que as melhores coisas são as iguais". Porém, defende, "a literatura fica num campo à parte, no campo do estranho, da tentativa".

Pujol Filho destacou a plasticidade da língua portuguesa e como ela propicia a formação de neologismos, "como fazem o Luandino Vieira e o Ondjaki".

Sem brigas
"Não vamos brigar e não vamos mudar o acordo. Acreditamos que a diferença é mais legal do que ser igual", afirmou. Para ele, o sentido de "aceitar as diferenças" se insere em um projeto ambicioso de reunir pessoas talentosas que ainda não foram publicadas no Brasil.

"Tem gente chata que quer tirar o prazer de ler o 'contacto' com 'c' do Tavares, vamos ter que ler contato. O mais legal é ler os textos com a diferença", ressaltou o gaúcho, ao explicar que o critério para a escolha dos trabalhos para o livro era que os autores estivessem vivos.

Mas também foram adotados critérios subjetivos, "autores que me cativam pela linguagem, que me surpreendem com sensibilidade e sutileza, com jeito próprio de trabalhar a linguagem", afirmou.

O livro, que levou um ano e meio para ser organizado, reúne contos e poemas e será lançado primeiro em Porto Alegre, mas ainda poderá ser divulgado em outras capitais brasileiras.

"Outro lado"
O projeto do "desacordo", idealizado por Pujol Filho em 2007, tem ainda a meta de alcançar "o outro lado" e extrapolar os limites nacionais do Brasil com outros países lusófonos.

"Desacordos-desencontros são vias necessárias para chegar aos acordos-encontros que todos procuramos", destacou Pepetela em comentário escrito sobre o "desacordo".


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 10:01:01 AM
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Quadrinhos e Guerra Fria

Gibis retratam o conflito entre EUA e URSS

Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

O Quarteto Fantástico enfrenta o Doutor Destino

A Guerra Fria foi uma disputa travada durante quase cinco décadas pelas duas superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial: os Estados Unidos e a União Soviética. Foi um período marcado por muita espionagem e propaganda política, tanto do lado norte-americano quanto do soviético. Não bastasse tudo isso, armas atômicas seriam usadas caso as duas superpotências partissem para o conflito militar direto.

Foi durante a Guerra Fria que uma nova onda de super-heróis surgiu nos gibis norte-americanos, especialmente nos da Marvel Comics (hoje a maior editora de quadrinhos do mundo). Você certamente já ouviu falar dessas personagens, pois várias foram adaptadas para o cinema nos últimos anos, com grande sucesso de bilheteria. Dentre essas personagens, podemos destacar o Homem-Aranha, os X-Men, o Hulk e o Quarteto Fantástico.

Aqui, falaremos da relação delas com a Guerra Fria. Afinal, embora sejam fictícias e tenham sido criadas apenas para entretenimento, seus criadores se inspiraram na época que viviam. Começaremos pelo Quarteto Fantástico, o primeiro gibi da Marvel em que o escritor-editor Stan Lee fez parceria com o desenhista Jack Kirby.

O Quarteto Fantástico

O primeiro gibi do Quarteto Fantástico foi publicado em novembro de 1961 -ou seja, poucos meses depois de o cosmonauta soviético Yuri Gagarin ter-se tornado o primeiro ser humano a viajar para o espaço, realizando um vôo orbital (12 de abril de 1961), e quase uma década antes de o astronauta norte-americano Neil Armstrong ter sido o primeiro homem a pisar na Lua (20 de julho de 1969). Assim, o Quarteto Fantástico foi lançado na mesma época em que os EUA e a URSS disputavam a corrida espacial.

O próprio surgimento desse grupo de heróis faz alusão à Guerra Fria: no início da história, pouco antes de os quatro futuros heróis viajarem para o espaço, a narração menciona que os EUA estão numa "corrida espacial" com "uma potência estrangeira". Claro que a tal "potência estrangeira" era a URSS, mas, diferentemente do que tinha acontecido durante a Segunda Guerra Mundial, os autores dos gibis da Guerra Fria preferiam não dar nome aos bois quando se referiam aos "inimigos da América".

No gibi, o Quarteto Fantástico tem origem um pouquinho diferente daquela contada no filme de 2005: quatro amigos - o cientista Reed Richards; sua noiva, Sue Storm; o irmão adolescente dela, Johnny Storm; e o piloto de foguetes Ben Grimm - embarcam num foguete experimental, voam para o espaço e são bombardeados por raios cósmicos. Ao voltarem para a Terra, descobrem que os raios cósmicos os afetaram, dando-lhes superpoderes.

Richards consegue esticar partes de seu corpo e assume o codinome Senhor Fantástico (qualquer semelhança com outro super-herói, o Homem-Borracha, não é mera coincidência); Sue se torna a Garota Invisível (anos depois, mudará o nome para Mulher Invisível, pois em nossos tempos "politicamente corretos" é considerado machismo chamar de "garota" uma mulher adulta); Johnny vira o Tocha Humana; e Ben, o monstruoso Coisa. Os raios cósmicos existem mesmo, mas na vida real eles matam, como seu professor ou professora de ciências poderá lhe explicar.

A corrida espacial não é a única alusão à Guerra Fria que encontramos nos primeiros gibis do Quarteto Fantástico. O principal inimigo do Quarteto era o Doutor Destino, que governava literalmente com mãos de ferro um pequeno país do Leste Europeu, bem na região onde se concentravam os países do bloco socialista.

Na tradução feita no Brasil, o nome dado ao país do Doutor Destino era "Latvéria", o que poderia levar a concluir que se tratava de uma terra imaginária. Mas, no original, o nome era "Latvia" - cuja tradução correta para o português é Letônia, na época uma das repúblicas que compunham a URSS. O próprio visual do vilão, com sua armadura de ferro, pode ser referência à "Cortina de Ferro", a expressão popularizada pelo ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill para se referir aos países da Europa oriental que ficaram sob influência da URSS após a Segunda Guerra Mundial.

O Incrível Hulk

O Incrível Hulk, segunda criação da parceria Stan Lee-Jack Kirby, também refletia o contexto da Guerra Fria. No primeiro número do gibi, lançado em maio de 1962, ficamos sabendo como o cientista Bruce Banner se tornou o Hulk: ele tenta salvar um adolescente que invadiu o local onde se testará pela primeira vez a "bomba gama" (projetada pelo próprio Banner) e fica exposto aos raios gama quando a bomba é detonada propositalmente por seu assistente, um espião iugoslavo disfarçado.

Banner, em vez de morrer de leucemia ou queimaduras radiativas (que é o que aconteceria na vida real), descobre que os raios gama alteraram a química de seu corpo. Agora, sempre que se enfurece, é humilhado ou entra em pânico, ele se transforma no Hulk, um brutamontes capaz de levantar toneladas. Curiosamente, o Hulk era para ser cinzento, mas falhas de impressão no primeiro número do gibi fizeram que ele aparecesse esverdeado em alguns quadrinhos. Assim, o verde se tornou sua cor definitiva.


reprodução
Capa do n. 1 de O Incrível Hulk


Até o fato de Banner ser físico nuclear tinha relação com a Guerra Fria. Desde o Projeto Manhattan (o qual desenvolveu as bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki), os físicos nucleares tinham "importância estratégica" para o governo dos EUA. Vale recordar que, segundo alguns historiadores, as bombas atômicas usadas contra o Japão marcaram não apenas o fim da Segunda Guerra Mundial, mas o começo da Guerra Fria.

Segundo tal interpretação, o ataque a Hiroshima e Nagasaki teria sido a forma que os EUA encontraram de mandar o seguinte recado à URSS: "Cuidado conosco! Nós temos a bomba!" Depois disso, a procura por carreiras científicas, sobretudo em física nuclear, aumentou consideravelmente nas universidades norte-americanas. Bruce Banner, assim como os físicos do Projeto Manhattan, trabalha para os militares; e a "bomba gama" explode no deserto do Novo México, região dos EUA onde foram mesmo realizados os primeiros testes atômicos.

Outro elemento da Guerra Fria presente na saga do Hulk é o espião iugoslavo. Naquela época, histórias de espionagem eram comuns tanto na ficção quanto na realidade. Além disso, a Iugoslávia era um dos países do Leste Europeu onde os comunistas haviam chegado ao poder. (No entanto, os iugoslavos eram um caso à parte: o então governante do país, o marechal Tito, principal líder da resistência contra os invasores alemães durante a Segunda Guerra Mundial, não seguia todos os ditames da União Soviética; por isso, o modelo socialista adotado na Iugoslávia era um pouco diferente daquele que predominava nos outros países do Leste.)

Em suas primeiras aventuras, o Hulk enfrentou vários vilões comunistas, mas havia igualmente críticas aos EUA. Em primeiro lugar, porque o principal inimigo do Hulk era o general Ross, também pai da namorada de Banner. Ou seja, em muitas histórias do Hulk, o inimigo era o próprio Exército norte-americano, sempre perseguindo o gigante verde. E não se deve esquecer que o Hulk era um monstro criado pelo horror atômico. Ao conceberem a história, Stan Lee e Jack Kirby pretenderam transmitir uma lição de moral: Banner é vítima de uma arma que ele mesmo projetou, e o cientista sente remorsos por isso.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:16:03 PM
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Guerra Fria

Afinal, quem venceu a Guerra Fria?

Por Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Quais foram os principais aliados dos Estados Unidos durante a Guerra Fria?

Basicamente foram os países da Europa Ocidental, dentre os quais aqueles que foram beneficiados pelo Plano Marshall, o plano de ajuda econômica proposto pelo general George Marshall, então secretário de Estado norte-americano, para a reconstrução desses países após o término da Segunda Guerra. Entre esses países, podemos destacar o Reino Unido, a França e a Alemanha Ocidental, a Bélgica e a Holanda. Os Estados Unidos e esses países firmaram em 1949 uma aliança político-militar, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

E quais foram os principais aliados da União Soviética?

Foram basicamente os países da Europa Oriental que estiveram sob a ocupação nazista durante a Segunda Guerra e que tiveram as forças nazistas expulsas pela chegada do exército soviético. Em 1955, a União Soviética criou uma organização militar para a defesa dos países socialistas. Faziam parte dessa organização a Alemanha Oriental, a Polônia, a Tchecoslováquia, a Hungria, a Romênia, a Bulgária e a Albânia.

E a Iugoslávia? Ela não era um país socialista?

A Iugoslávia foi o único país socialista do leste europeu a se recusar a fazer parte do Pacto de Varsóvia. Isso se devia ao fato de a Iugoslávia ter sido o único desses países a não se tornar fantoche da União Soviética: na Iugoslávia, os nazistas foram expulsos pela própria resistência iugoslava, e quem implantou o socialismo nesse país foi o Marechal Tito, principal líder dessa resistência, que governou o país durante décadas.

O que significa "Terceiro Mundo"?

A expressão "Terceiro Mundo" surgiu na Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955. Os 29 países que participaram dessa conferência eram, em sua maioria, africanos e asiáticos. Eles deram a si próprios o nome de "Terceiro Mundo", queriam dizer que queriam defender os seus próprios interesses, preferindo permanecer neutros na Guerra Fria. Ou seja, não queriam estar alinhados nem com o Primeiro Mundo (o bloco liderado pelos Estados Unidos) e nem com o Segundo Mundo (o bloco liderado pela União Soviética). Os principais líderes do Terceiro Mundo eram Nehru, da Índia, Nasser, do Egito, e o marechal Tito, da Iugoslávia. Com o passar do tempo, a expressão "Terceiro Mundo" ganhou um novo sentido, o de conjunto dos países pobres e em desenvolvimento.


Divulgação/Nasa

Soldado supervisiona a construção do Muro de Berlim


O que foi o Muro de Berlim?

Como sabemos, soviéticos, norte-americanos, ingleses e franceses (no caso, a resistência francesa liderada pelo general De Gaulle, que era contra a ocupação nazista) foram aliados contra a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. No final da guerra, a Alemanha foi ocupada pelos Aliados. O lado ocidental foi ocupado pelos exércitos inglês, francês e norte-americano. O lado oriental foi ocupado pelo exército soviético. O nazismo deixou de existir nos dois lados da Alemanha, mas o país foi dividido em dois: a Alemanha Ocidental, capitalista, e a Alemanha Oriental, onde foi implantado o socialismo. A capital alemã Berlim também foi dividida em Berlim ocidental e Berlim oriental. A união Soviética ordenou a construção de um muro - o Muro do Berlim - separando as duas partes de Berlim, alegando que milhares de alemães orientais fugiam para o lado ocidental, ao mesmo tempo que moedas e mercadorias contrabandeadas faziam o caminho inverso. Famílias foram separadas e o muro de Berlim, apelidado de "muro da vergonha" tornou-se o símbolo da Guerra Fria.

Como conviviam as duas Alemanhas?

As duas Alemanhas tiveram desenvolvimento, mas a Alemanha Ocidental conheceu um desenvolvimento bem maior que a Alemanha Oriental, o padrão de vida dos alemães ocidentais era muito mais confortável que o dos alemães orientais. Além disso, apesar do muro, milhares de alemães orientais continuaram tentando fugir para a Alemanha ocidental, arriscando suas próprias vidas (os guardas do lado oriental podiam disparar nas pessoas que tentavam fugir). A situação ficou insustentável e o governo da Alemanha oriental iniciou uma série de reformas. Em 9 de novembro de 1989, o muro foi derrubado por alemães dos dois lados. Depois da queda do muro, os governos das duas Alemanhas começaram as negociações para reunificar o país, ou seja, para os dois países voltarem a ser uma só Alemanha, capitalista e democrática. Isso ocorreu em 3 de outubro do mesmo ano.

Quem venceu a Guerra Fria?

Antes mesmo da sua extinção, a União Soviética não conseguiu vencer a concorrência com os Estados Unidos. Uma das principais razões para essa derrota foi o fato de que para competir com os Estados Unidos, a união Soviética gastava grande parte do seu orçamento com gastos militares enquanto faltava dinheiro em outras áreas. Os Estados Unidos tinham grandes empresas particulares que competiam entre si, investindo na qualidade de seus produtos, especialmente bens de consumo (automóveis, eletrodomésticos...). A União Soviética tinha empresas estatais (pertenciam ao Estado), onde o emprego dos trabalhadores estava garantido, mas que pela falta de competição não investiam na qualidade dos seus produtos. Além disso, a União Soviética priorizava as indústrias de base (matérias-primas, equipamento para fábricas...) e não a produção de bens de consumo.

Então, o capitalismo venceu?

Muitos analistas acreditam que a vitória do capitalismo não pode ser entendida como uma derrota definitiva do socialismo. Para esses analistas, o que acabou foi o tipo de socialismo implantado na União Soviética e no leste europeu, que seria, na verdade, um "capitalismo de Estado", uma distorção dos ideais socialistas.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:15:10 PM
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URSS - O fim

Boris Ieltsin e o fim do regime socialista na Rússia

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

No alfabeto russo, o C equivale ao S. CCCP quer dizer Soyuz Sovietsky Socialisticesky Respublik

O ex-presidente russo Boris Ieltsin, morto a 23 de abril de 2007, foi protagonista de um dos fatos mais importantes da recente história mundial: o fim da União Soviética. Esse Estado se originou da revolução socialista na Rússia, em 1917, e se estabeleceu em 1922, ao fim de uma longa guerra civil.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (CCCP, em russo) tornou-se uma federação de 15 repúblicas multiétnicas, sob supremacia russa. Foi o primeiro país do mundo a adotar esse regime político-econômico e, nesse sentido, um imenso laboratório onde se puseram a prova as teorias do socialismo científico.

Porém, ao contrário do que preconizava Karl Marx, cujas idéias orientaram os socialistas russos, a revolução que deveria a acabar com a sociedade de classes e instituir uma utopia igualitária, a partir da ditadura do proletariado, transformou-se rapidamente na ditadura de um partido único, nas mãos de suas primeiras lideranças, Lênin e, depois, Stálin.

Sob o governo deste último, a política se transformou num monopólio do Partido Comunista da União Soviética, a ditadura intensificou seu caráter autoritário e repressivo e desenvolveu-se o culto à personalidade. Isto é, Stálin foi endeusado e identificado pela população com o próprio Estado soviético.

Entretanto, o endurecimento do regime stalinista talvez seja um dos fatores que permitiu à União Soviética a enfrentar a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Da guerra, a URSS emergiu como superpotência militar. Nessa condição, até os anos 1980, disputou com os Estados Unidos da América a hegemonia do poder mundial.

Fracasso do planejamento

Na União Soviética, partir da década de 1970, o planejamento econômico, pilar do regime socialista (por oposição ao livre-mercado) começou a dar sinais de esgotamento. O controle rígido da economia pela burocracia estatal gerou estagnação em vez de crescimento. O Estado determinava o que e quanto produzir, onde comprar matérias-primas, qual o preço das mercadorias e o salário dos trabalhadores.

Os burocratas do partido só se preocupavam em cumprir as metas estabelecidas. A falta de concorrência levava ao desinteresse por um aprimoramento da qualidade dos produtos, bem como não havia motivo para oferecer à população uma grande variedade de bens de consumo - considerados luxos burgueses. Os grandes investimentos se destinavam à indústria bélica, para fazer frente aos Estados Unidos.

Aos poucos, o desabastecimento até de mercadorias de primeira necessidade tornou-se a regra da economia soviética. Ficaram mundialmente famosas as longas filas e os cartões de racionamento para a compra de pão ou leite. Paralelamente, desenvolveu-se um mercado negro e a corrupção começou a se generalizar no governo do país, cujas lideranças gozavam de privilégios e mordomias.

Perestroika e glasnost

Nesse pano de fundo, em 1985, subiu ao poder Mikhail Gorbatchov, aos 54 anos de idade. Tratava-se de um governante muito jovem pelos padrões da burocracia soviética. Tratava-se também de um político que via necessidades de reformas para evitar o colapso de seu país.

Gorbatchov procurou promover uma reestruturação ("perestroika", em russo) da economia, desmilitarizando-a e descentralizando-a. Introduziu elementos da economia de mercado na União Soviética, abrindo-a ao capital estrangeiro, promovendo privatizações e fechando empresas deficitárias. Nesse sentido, talvez tentasse repetir a Nova Política Econômica, com que Lênin, nos anos 1920, reintroduziu elementos capitalistas na economia soviética para preservar o regime.

Ao contrário de seu ilustre antecessor, Gorbatchov promoveu simultaneamente uma abertura política, a que chamou de "glasnost" (transparência, em português). Com ela, restabeleceu-se o pluripartidarismo, aboliu-se a censura, e libertaram-se presos políticos, além de se incentivar a liberalização dos regimes dos países do Leste Europeu, onde a economia planejada também fracassava e a insatisfação popular aumentava dia a dia.

No entanto, as medidas não foram suficientes para reverter a crise econômica do país e Gorbatchov começou a perder popularidade. Aproveitando-se disso, antigas lideranças do Partido Comunista aliados a chefes militares tentaram dar um golpe de Estado em agosto de 1991.

Ieltsin e a resistência

Foi justamente Boris Ieltsin quem assumiu a liderança da população contra o golpe, entrincheirando-se no Parlamento soviético e mostrando-se determinado a resistir da maneira que fosse necessária. Diante dessa inesperada reação popular, os golpistas acabaram por libertar Gorbatchov que retomou o comando da União. Ieltsin, por sua vez, foi eleito presidente da Rússia, a principal das repúblicas soviéticas.

Em momentos de ruptura, o ritmo dos acontecimentos históricos se aceleram: em setembro de 91, a Lituânia, a Estônia e a Letônia se proclamaram independentes da União Soviética. Em dezembro do mesmo ano, a Rússia, a Ucrânia e a Bielo-Rússia (atual Belarus) se reuniram numa Comunidade de Estados Independentes. Diante disso, na prática a União Soviética não existia mais. Gorbatchov renunciou e declarou a extinção da URSS no último dia do ano.

Presidência de Ieltsin

Ieltsin conseguiu manter-se à frente do governo russo até 1999, mas sua gestão destruiu a imagem heróica de estadista que adquirira com os acontecimentos que puseram fim a URSS. Exerceu o poder de maneira autoritária e populista, não conseguindo resolver os problemas da Rússia: pelo contrário, o país mergulhou no caos econômico e o crime organizado se desenvolveu intensamente.

Enfraquecido no plano político e com a saúde abalada (também devido aos seus excessos alcoólicos que se tornaram notórios), Ieltsin renunciou em 31 de dezembro de 1999, nomeando para seu lugar Vladimir Putin, que governa a Rússia autocraticamente até hoje. Com a garantia de que não seria processado por seus desmandos, o líder da resistência de 1991, desapareceu de cena para entrar na história.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:14:19 PM
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Comunismo: utopia, ciência e realidade

Da natureza à sociedade

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

 

"Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos." Com essas palavras, Marx e Engels encerram o "Manifesto do Partido Comunista", lançado em 1848. Nele, clamavam pela união do operariado contra a burguesia, em nome de uma revolução que devia criar uma sociedade sem classes. Trata-se de um panfleto político que somente delineia as idéias dos dois filósofos, expressas de maneira mais extensa em sua obra principal, "O Capital".

Antes de mais nada, é preciso compreender que o pensamento de Marx propunha uma interpretação materialista da História. Na segunda metade do século XIX, a ciência conhecia um momento de grande desenvolvimento, em especial devido às descobertas de Charles Darwin, cujo evolucionismo é a base das ciências biológicas ainda hoje.

Empolgado com o materialismo de Darwin, Marx quis dedicar a ele o segundo volume de "O capital" (mas o cientista inglês rejeitou a oferta). De qualquer modo, Marx acreditava ter descoberto - para a história - aquilo que Darwin descobrira para a biologia: uma lei objetiva que explicava seu funcionamento. Para Darwin, a natureza era movida pela "seleção natural". Para Marx, a história era movida pela economia e pela luta de classes.

Em primeiro lugar, segundo Marx, estão os meios materiais através dos quais os homens garantem sua sobrevivência. Por isso, a organização econômica de uma sociedade seria o elemento determinante de sua política e de sua cultura. O ser humano, porém, é visto como agente capaz de transformar essa realidade. Aliás, Marx dizia que - até ele - a filosofia tinha se limitado a explicar o mundo, agora chegara o momento de transformá-lo.

Revolução reciclada
Para demonstrar essa tese, o marxismo descrevia o que aconteceu durante a Revolução francesa, quando a burguesia teria destronado a nobreza. A nova revolução proposta por Marx daria seqüência à marcha da história, erguendo o operariado contra a burguesia, que o explorava.

Mas em que consistiria essa exploração? Segundo Marx. ao vender sua força de trabalho, o operário estaria alienando (transferindo para outro, no caso o patrão) sua capacidade criativa, bem como o produto do seu próprio trabalho. Ou seja, o controle do processo e os lucros gerados pelo trabalho ficam nas mãos do capitalista, proprietário dos meios de produção (as máquinas, as fábricas...).

O papel do intelectual
O operário, contudo, não reconheceria a exploração de que é vítima. Daí a importância do intelectual marxista no processo de formação da consciência de classe, por meio da qual o trabalhador descobriria que seus interesses são divergentes dos da classe dominante. Além disso, o marxismo valoriza também as experiências de reivindicação específica dos trabalhadores, por meio de suas organizações representativas como os sindicatos e partidos políticos.

Enfim, para o marxismo, o operariado revolucionário seria capaz de destruir o capitalismo e o Estado burguês. Construiria, então, o socialismo, que consistiria na superação da contradição entre capitalismo e proletariado. Mas o fim último do socialismo é atingir o comunismo, fase em que a sociedade - sem classes - não precisa mais do Estado, que desapareceria.

Antes de isso acontecer, segundo Marx e Engels, ocorreria uma fase de transição - a ditadura do proletariado - em que é necessária a existência de um Estado forte e centralizador, capaz de planificar a economia. Vale a pena refletir sobre a implantação desse estado forte e centralizador nos locais onde ele ocorreu. Afinal, como disse o filósofo escocês David Hume, no século 18, só podemos compreender as crenças e as doutrinas que configuram o mundo observando a ação de seus pensadores.
*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia e Comunicação.

» Comunismo: utopia, ciência e realidade



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:13:20 PM
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Comunismo: utopia, ciência e realidade

O socialismo real

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Em novembro de 1917, na Rússia, em meio à Primeira Guerra Mundial e a uma imensa crise econômico-política, Lênin tomou o comando da Revolução popular que havia deposto o governo monárquico em março daquele mesmo ano. Lênin concentrou o poder nas mãos do Partido Comunista e combateu violentamente a oposição, considerando que "não se deve discutir com opositores, mas pô-los diante de um pelotão de fuzilamento".


Reprodução
Realismo socialista: a arte se transformou em propaganda do regime. "Rosas para Stálin", quadro de Boris Vladimirski (1949)


Cinco anos mais tarde, o novo regime russo se estabilizava e a Rússia passava a comandar uma confederação de países seguidora de uma orientação marxista-leninista: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a morte de Lênin, em 1924, ocorreu uma disputa pelo poder entre seus dois principais lugares-tenentes, Leon Trotsky e Josef Stálin, vencida por este último, que governou a União Soviética - com mão de ferro - de 1929 até 1953.

Após a Segunda Guerra Mundial, sendo libertados da ocupação nazista pelas tropas de Stálin, vários países da Europa centro-oriental se viram forçados a fazer parte do bloco soviético integrando a chamada "Cortina de Ferro". Em 1949, a China também aderiu ao comunismo, assim como, décadas mais tarde, Cuba e alguns países africanos. Tudo levava a crer que novas revoluções viriam a ocorrer, insufladas pelos países onde o comunismo triunfara. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos se encarregavam de enfrentá-las, promovendo contra-revoluções também violentas.

A queda do Muro
Entretanto, em vez de continuar se expandindo como se acreditava que podia acontecer nas décadas de 1960 e 1970, os regimes comunistas começaram a implodir no final dos anos 1980. Em 1989, a queda do Muro de Berlim marcou o fim do regime na Alemanha Oriental, que se unificou à Ociental (capitalista). Em agosto de 1991, depois de um período de abertura, a União Soviética entrava em colapso e se dissolvia.

A derrocada do comunismo - que hoje vigora apenas em Cuba, na Coréia do Norte e, parcialmente, na China - talvez encontre uma explicação na própria forma pela qual as idéias marxistas se tornaram realidade. Em todos os países onde a revolução comunista aconteceu, a ditadura do proletariado se transformou na ditadura do partido único, o Partido Comunista, cujos dirigentes e burocratas se transformaram numa casta de privilegiados, totalmente distanciada do resto da população.

O Partido tornou-se uma entidade suprema, cuja ideologia deveria ser adotada por todos, sem direito a qualquer tipo de contestação. Isso gerou um Estado policialesco, sempre à caça de dissidentes, que eram perseguidos, presos ou eliminados. Além disso, apelando à História para garantir a sua legitimidade, a propaganda comunista freqüentemente reescrevia a História, adaptando os fatos às necessidades de seus governantes. Por exemplo, a participação de Trótski na Revolução russa foi simplesmente apagada dos livros de história da União Soviética, após Stálin, seu adversário, ter chegado ao poder.

Também no âmbito econômico, o comunismo só produziu fiascos. Em todos os países em que foi implantado, a economia dirigida pelo Estado, não produziu prosperidade, mas sim estagnação. Além disso, no contexto da guerra fria, os países socialistas - em especial a União Soviética - privilegiaram a indústria bélica, que sugava recursos (econômicos, tecnológicos, etc.) de outros setores, tornando suas sociedades atrasadas em termos de bens de consumo, quando não gerando o racionamento ou desabastecimento de gêneros básicos.

Guerra nas estrelas
Evidentemente, os Estados Unidos também colaboraram para levar o regime comunista da União Soviética ao colapso. Na década de 1980, o presidente norte-americano Ronald Reagan, em especial, investiu em programas sofisticados e caros na área militar e espacial, forçando o governo russo a tentar acompanhá-lo. Sem dispor dos mesmos recursos da rica economia norte-americana, a União Soviética passou a sofrer os efeitos de uma violenta crise, que, afinal, fez desmoronar o regime.

Em 1989, estudantes universitários também promoveram manifestações e protestos na China, exigindo maiores liberdades, sendo violentamente reprimidos pelo governo chinês. Entretanto, para se perpetuar no poder, o Partido Comunista Chinês usou de um expediente paradoxal: tratou de colocar a sua economia nos rumos do capitalismo. O país hoje tornou-se emergente e liberal no plano econômico, embora no campo político continue vivendo a ditadura de um partido único.

Os descaminhos dos regimes socialistas e seu colapso não representaram absolutamente o descrédito ou o fim das idéias marxistas. Ainda hoje, é grande o número de adeptos da filosofia de Marx. Segundo eles, o colapso do comunismo foi, na verdade, o colapso do "socialismo real" ou "stalinismo", ou seja, de uma versão deturpada e autoritária do marxismo.

Atualmente, os pensadores de orientação marxista tentam repensar o que aconteceu no mundo nas duas últimas décadas, para adaptar o marxismo à nova realidade e descobrir os novos caminhos para uma luta - revolucionária ou democrática - para uma sociedade sem classes.
*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia e Comunicação.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:12:27 PM
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Guerra Fria - início

Da Segunda Guerra Mundial às primeiras hostilidades

Gilberto Salomão*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Cartaz do Exército Vermelho com os dizeres: Avante, a vitória está próxima!

Os milhões de mortos e as perdas materiais incalculáveis não foram a única herança deixada pelo maior conflito que a humanidade conheceu, a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário, o término das hostilidades serviu como marco inicial de um processo que pautou as relações internacionais ao longo da segunda metade do século 20, a chamada Guerra Fria.

O historiador Maurice Crouzet, na obra História Geral das Civilizações, afirma que "desde o fim das operações militares na Europa e na Ásia, as desconfianças se agravam, os mal-entendidos, as suspeitas se acumulam de parte a parte: as oposições entre os aliados se aprofundaram e culminaram, em alguns anos, em um conflito que, em todos os domínios, salvo o das armas, assumiu o caráter de uma verdadeira guerra: é a Guerra Fria".

Na verdade, essa rivalidade encontra suas origens já no processo que levou ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ela é fruto da bipolarização que se abriu, com o crescimento da União Soviética, verdadeira vencedora da guerra, o declínio da França, da Inglaterra e da Alemanha, e a consolidação dos EUA como única potência capitalista, capaz de fazer frente ao poderio soviético.

Já nos tratados e Yalta e Potsdam, ao final da Segunda Guerra, os marcos dessa bipolarização estavam definidos. A divisão da Europa, em áreas de influência soviética e capitalista, apontava para uma realidade que os anos seguintes apenas confirmaram: a do confronto ideológico, político, militar e estratégico entre as duas superpotências.

A URSS e o Exército Vermelho

Cabe lembrar que a vitória da URSS na Segunda Guerra deu a esse país uma estatura invejável. Ante uma Europa destruída, a URSS emergia como a grande potência continental. Mais do que isso, sua vitória sobre os nazistas fora acompanhada de um avanço de suas tropas, o Exército Vermelho, o qual, ao derrotar os exércitos alemães nos vários países da Europa do Leste, ia impondo governos socialistas a esses países, obrigando-os a terem, como única referência, a URSS.

Criava-se, assim, um cinturão de países socialistas em torno da URSS, aquilo que mais tarde foi batizado por Winston Churchill como a Cortina de Ferro.

Mais do que isso, é importante frisar que o Exército Vermelho foi o primeiro e na verdade o único exército a vencer as forças nazistas em terra. Consolidou-se, dessa forma, a idéia de que o socialismo era a única força capaz de deter o nazismo e assegurar a liberdade. Tal fato serviu como uma bandeira que avivou sensivelmente a pregação socialista em todo o mundo.

Descolonização na África e na Ásia

Ao lado disso, o crescimento soviético era possibilitado por outros elementos. O enfraquecimento da França e da Inglaterra, bem como a derrota da Itália, da Alemanha e do Japão foram dois fatores que inviabilizaram a capacidade desses países de se manterem como potências colonialistas.

Assim, o final da Segunda Guerra deu início a um amplo processo de descolonização na África e na Ásia. Era natural que as novas nações, recém-independentes e ainda frágeis enquanto Estados autônomos, buscassem se distanciar das potências capitalistas e imperialistas. Assim, abria-se um espaço imenso de penetração soviética nessas áreas.

Da mesma forma, na América Latina, onde o grau de contradições sociais e a miséria eram largamente apontados como um atestado do fracasso do capitalismo em dar resposta às demandas sociais, havia uma situação fértil para o crescimento dos ideais socialistas.

Assim, naturalmente, as perspectivas que se abriram ao final da Segunda Guerra Mundial eram de um fortalecimento ainda maior da URSS, o que representava uma ameaça aos interesses dos EUA e à própria ordem capitalista.

Essa é a razão pela qual, desde o final da guerra, o clima de tensão ter sido uma constante e tenha se manifestado de forma mais incisiva em várias regiões. Essa tensão acabou por gerar conflitos que, se por um lado, jamais colocaram em oposição direta as duas grandes potências, sempre tiveram nelas as suas orquestradoras.

Além disso, por vários momentos, houve o medo, não de todo destituído de sentido, de que o clima de tensão culminasse em uma guerra efetiva entre as duas superpotências. Esse medo era alimentado pela corrida armamentista em que ambas se achavam empenhadas, marcada pelo uso da energia nuclear, carregada de todo o terror simbolizado pela bomba de Hiroshima.

A aliança entre os países capitalistas e a URSS, forçada pela agressão do Eixo (grupo formado, durante a Segunda Guerra Mundial, por Alemanha, Itália e Japão), não sobreviveu sequer um ano após a rendição da Alemanha e do Japão.

Churchill e Truman

Já em 1946, em Fulton, cidade norte-americana no Estado de Missouri, Winston Churchill, ainda primeiro-ministro britânico, pronunciou um discurso que se tornou célebre. Nele, Churchill apontava a URSS como o novo e mais terrível inimigo da coligação anglo-saxã, depositária dos valores ocidentais. Nesse discurso, o primeiro-ministro britânico usou, pela primeira vez, a expressão Cortina de Ferro para designar o domínio soviético sobre a Europa Oriental, dando ao termo uma conotação essencialmente sinistra.

Já no ano seguinte, o presidente Harry Truman dava livre trânsito a esse mesmo pensamento. Em um discurso, ele afirmava:

"Acredito que deva ser política dos Estados Unidos apoiar os povos livres que resistem a tentativas de subjugação por minorias armadas ou outras formas de pressões externas. [...] O mundo não é estático, e o status quo não é sagrado. Mas não podemos permitir mudanças no status quo com violações da Carta das Nações Unidas por métodos tais como coerção, ou por subterfúgios como a infiltração política. Ajudando as nações livres e independentes a manter sua independência, os Estados Unidos estarão dando efeito aos princípios da Carta das Nações Unidas.

[...] Os povos livres do mundo olham para nós esperando apoio na manutenção de sua liberdade. [...] Se fracassarmos na nossa missão de liderança, talvez ponhamos em perigo a paz e o mundo - e certamente poremos em perigo a segurança de nossa própria nação. É claro que os Estados Unidos não podem esperar gozar de intimidades com o regime soviético em um futuro previsível. Devem continuar a encarar a União Soviética como um rival, não como um parceiro, na arena política. Devem continuar a esperar que as políticas soviéticas não reflitam amor abstrato pela paz e pela estabilidade, fé verdadeira na possibilidade de uma coexistência permanente e feliz dos mundos capitalista e socialista, mas uma pressão cautelosa e persistente visando ao enfraquecimento e a desagregação de qualquer força e influência rival.

Para equilibrar isso, a Rússia, como sempre diferente do mundo ocidental em geral, ainda é o partido mais fraco, a política soviética bastante flexível e a sociedade soviética pode bem conter deficiências que eventualmente enfraquecerão seu próprio potencial total. Isso bastaria para garantir aos Estados Unidos entrarem confiantes em uma política de firme contenção, projetada para opor à Rússia uma contração inalterável em todo ponto onde mostrassem indícios de violar os interesses de um mundo pacífico e estável."


Era a demonstração clara de que a política dos EUA passaria por uma mudança histórica. O globalismo substituiu a neutralidade. E a única potência capitalista que restava assumiu um papel dominante no cenário mundial.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:07:38 PM
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Guerra Fria - evolução

Do Plano Marshall ao início da Coexistência Pacífica

Gilberto Salomão*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
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Marshall, um dos idealizadores do plano de ajuda aos países europeus em crise após a guerra

Depois da Segunda Guerra Mundial, um dos primeiros componentes da nova atitude dos EUA em relação à União Soviética foi, em 1947, a aprovação do Plano Marshall.

Em tese, o plano consistia na ajuda econômica dos EUA aos países europeus em crise após a guerra. Mas havia alguns objetivos por trás desse plano. Um deles era o de impedir o colapso das economias dos países europeus, de modo a impedir também uma crise geral do capitalismo, afastando a lembrança da crise de 1929, quando o declínio do mercado europeu foi decisivo para o cataclisma que se abateu sobre a economia dos EUA.

Outra razão é que, ao conceder empréstimos e investimentos a esses países, os EUA tornavam seus governos dependentes das suas próprias orientações políticas, ampliando sua influência na região.

Mas há ainda outro objetivo: o de impedir que a crise econômica inevitável no pós-guerra ampliasse a força dos movimentos sociais, o que criaria maiores condições para o avanço das idéias socialistas na Europa Ocidental.

As respostas da URSS

Essa investida da diplomacia norte-americana sobre a Europa motivou a reação soviética, com a criação do Comecon, um plano de ajuda econômica soviética aos países socialistas, e do Kuominform, uma forma de união dos partidos comunistas europeus sob a égide do governo da URSS.

Também nesse momento delimitou-se a situação da Alemanha, particularmente delicada por ter sido esse o país causador da Segunda Guerra Mundial. Apesar de derrotada, a Alemanha sempre ocupara um papel preponderante no cenário europeu. Ao final da guerra, a Alemanha ficara dividida entre as 4 potências vencedoras: os EUA, a França, a Inglaterra e a URSS. Quase imediatamente, França, Inglaterra e EUA decidiram-se por uma administração unificada em seus domínios.

Esse fato, aliado ao crescimento da parte ocidental - em função dos dólares do Plano Marshall -, motivou uma reação da URSS: a determinação do bloqueio de Berlim, um enclave ocidental dentro da área sob domínio soviético. A esse fato, o ocidente reagiu com o abastecimento de Berlim por via aérea, desafiando o bloqueio soviético e ampliando a tensão na região.

Outra reação foi a institucionalização da unidade administrativa da Alemanha sob intervenção dos países capitalistas, gerando o surgimento da República Federal Alemã (Alemanha Ocidental), o que cristalizou a divisão da Alemanha, com a parte oriental dando origem à República Democrática Alemã, sob influência direta da URSS.

Entretanto, grande parte de Berlim, situada na Alemanha Oriental, estava sob controle dos países capitalistas, ou seja, fazia parte da Alemanha Ocidental. Dessa forma, em 1961 foi construído o Muro de Berlim, separando os dois lados da cidade. Criou-se assim aquele que foi o grande símbolo da Guerra Fria. Sua construção atestou de modo concreto a separação entre os dois mundos. Não por acaso, sua derrubada, em 1989, foi festejada como o início de uma nova era.

A OTAN e o Pacto de Varsóvia

A polarização entre os EUA e a URSS encontrou sua primeira manifestação militar em 1949, com a criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar e política dos países capitalistas, composta por EUA, Canadá, Reino Unido, Bélgica, Holanda, França, Portugal, Itália, Finlândia, Dinamarca, Noruega e Luxemburgo, incorporando mais tarde Grécia, Turquia e Alemanha Ocidental.

Contra essa aproximação entre os países capitalistas, foi criado, em 1955, o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar entre URSS, Albânia, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e Bulgária.

O macarthismo

Nos EUA, ao lado do crescimento econômico e do sensível aumento de sua influência internacional, o antagonismo com a URSS gerou um dos momentos de maior negação aos princípios de liberdade tão caros ao ideário iluminista que pautara a criação do país.

À frente de um comitê do Senado para investigar as supostas atividades antiamericanas, o senador Joseph MacCarthy foi o responsável maior por um clima de "caça às bruxas" nos EUA, gerando perseguições e delações por quaisquer motivos, incluindo a mera simpatia pelo comunismo. Os acusados eram vistos como conspiradores contra os EUA e a liberdade.

O macarthismo é o símbolo mais claro da histeria gerada pela Guerra Fria nos EUA. Artistas, jornalistas, políticos, cientistas, todos os setores foram atingidos pelas ações do senador MacCarthy, que tinha em Richard Nixon o seu principal aliado.

O stalinismo

Do lado soviético, a vitória e o fortalecimento do governo de Stalin geraram um gigantesco crescimento econômico, canalizado em grande parte para o crescimento da indústria bélica. Tal avanço teve como grande símbolo a produção pelos soviéticos da bomba atômica, fazendo desse país um rival efetivo dos EUA naquilo que sintetizava o horror do pós-guerra: a ameaça nuclear.

A essa ameaça somava-se o caráter brutalmente repressivo do governo de Stalin, no qual o "culto à personalidade" do ditador, visto como o grande líder, o condutor do processo de mobilização nacional, apenas sintetizava uma política interna de esmagamento de toda forma de oposição política, por meio da repressão, das prisões e de expurgos dentro do partido governante.

Essa atitude irradiou-se para os partidos comunistas de outros países da forma da expulsão de todos aqueles que ousassem contrariar o dogma imposto pelo Partido Comunista da URSS. Com isso, reforçava-se a pregação de que o avanço soviético era a destruição da liberdade - que tinha nos EUA seu grande e único guardião.

A Revolução Chinesa

O final da década de 1940 trouxe um componente fundamental para esse clima de tensão. Em 1949, a vitória dos revolucionários liderados por Mao Tsé-Tung na Revolução Chinesa significou a vitória de um movimento socialista no país com a maior população do mundo, ocupando uma região estrategicamente fundamental. A ameaça era ainda maior se lembrarmos que, ao longo de todo o século 19, a China havia sido uma área sob a total influência das potências capitalistas.

Leve distensão

Por outro lado, após um momento de grave tensão, nos primeiros anos que se seguiram ao final da Segunda Guerra, o quadro de enfrentamento tendeu a refluir, ao menos temporariamente. É uma característica desse período a oscilação entre momentos de tensão e de distensão, nos quais a sensação de iminência de uma guerra de grandes proporções era seguida por um processo de entendimentos e de tentativa de refrear a corrida armamentista.

Alguns elementos contribuíram para essa ligeira distensão a partir de 1953. Em primeiro lugar, a atitude de países europeus que se posicionavam contra sua condição de meros satélites da política externa dos EUA reduziu a influência norte-americana na região. A ruptura entre os governos da URSS e da China comunista, a partir de 1959, neutralizou o monolitismo do socialismo em todo o mundo, criando uma nova referência poderosa, que fugia à polarização entre EUA e URSS.

Também contribui para isso a morte de Stalin e o quadro político que se abriu na URSS. Após um período de disputa pelo poder entre Laurenti Béria, Georgu Malenkov e Nikita Kruschev , esse último, consolidando-se no poder a partir de 1955, iniciou um processo conhecido como desestalinização. Essa postura, alardeada no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1956, criticava o culto à personalidade de Stalin, denunciava seus crimes de perseguição política, prisões e execuções em massa e apontava na direção da descentralização política e da melhoria das condições de vida da população soviética.

Nos EUA, o fim do governo Truman e a eleição de Dwight D. Eisenhower para a presidência contribuíram para o refluxo do macarthismo e uma redução do clima de histeria anticomunista.

Esses elementos tornaram possível uma redução do clima de tensão internacional, abrindo espaço para a fase da chamada Coexistência Pacífica, caracterizada por uma série de reuniões de cúpula entre dirigentes das duas superpotências, resultando nos primeiros entendimentos para a limitação de armamentos.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:07:00 PM
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Guerra Fria - crises

Da corrida espacial à posse de Brejnev

Gilberto Salomão*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Department of Defense

Vista aéra da localização dos mísseis soviéticos em San Cristobal, Cuba, 1962

O clima de Coexistência Pacífica perdurou até o início da década de 1960, mesmo que acompanhado por claras manifestações de que a rivalidade entre os EUA e a URSS, longe de superada, estava apenas num momento menos agudo.

Prova disso é a disputa tecnológica entre as duas superpotências, que teve na corrida espacial sua grande vitrine. Nesse setor, a primeira grande vitória foi da URSS, que conseguiu colocar em órbita, em 1957, o primeiro satélite espacial, o Sputinik, além de realizar, em 1961, o primeiro vôo espacial tripulado, com Yuri Gagarin.

Entretanto, os soviéticos viam-se às voltas com contestações ao seu poderio dentro de seu próprio bloco. Um exemplo foi a Iugoslávia, sob o governo de Joseph Broz Tito, um país que, embora comunista, recusara-se a aderir ao Pacto de Varsóvia e a aceitar a tutela soviética.

Na Hungria, em 1956, assumiu o poder Imre Nagy. Questionando a submissão do país à URSS, Nagy defendia a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia e a adoção de uma política econômica mais aberta, que resultasse numa maior produção de bens de consumo e de melhoria das condições materiais de vida da população. Em novembro de 1956, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Hungria, promovendo um massacre que resultou na morte de centenas de húngaros. Imre Nagy foi derrubado, tendo sido colocado no poder Janos Kadar, reconduzindo-se assim a Hungria à órbita soviética.

A crise dos mísseis

Ainda no início da década de 1960, outro fenômeno acirrou sobremaneira os ânimos entre as superpotências. A recém-ocorrida Revolução Cubana demonstrava um fôlego inesperado para os EUA. O movimento, originalmente nacionalista e antiimperialista, ante o embargo econômico norte-americano caminhou em direção a uma aproximação com a URSS.

Dentro do contexto da Guerra Fria, essa aproximação gerou uma reação mais intensa por parte dos EUA. Eram os piores temores da histeria anticomunista que pareciam se confirmar, ainda mais se levando em consideração a proximidade geográfica de Cuba com os EUA e o fato de que, até então, a ilha nada mais fora do que um quintal do imperialismo norte-americano.

Em 1961, após romper relações com o governo cubano, o presidente John Kennedy autorizou a invasão de Cuba por um grupo de exilados cubanos com o apoio da Agência de Inteligência dos EUA (CIA). Essa tentativa foi facilmente rechaçada pelo governo cubano na Baía dos Porcos, mas selou de modo definitivo a ruptura entre os dois regimes. Não por acaso, em dezembro do mesmo ano, Fidel declarou sua adesão ao comunismo, consumando sua aproximação com a URSS.

Em reação a isso, o governo dos EUA pressionou seus aliados no continente a aprovarem a expulsão de Cuba da OEA (Organização dos Estados Americanos), ao mesmo tempo em que decretava um total bloqueio ao comércio com a ilha. Por outro lado, ao aderir ao bloco socialista, Cuba tornava-se um aliado estratégico fundamental para a URSS, que procurou ampliar sua presença militar na região.

Em 1962, os soviéticos instalaram mísseis nucleares em Cuba, sob a alegação de que eles teriam meramente a função de defender a ilha de um eventual ataque norte-americano. Tratava-se de uma evidente mentira, uma vez que a natureza ofensiva dos mísseis era clara. Contra isso, o governo dos EUA reagiu, exigindo a imediata retirada dos mísseis de Cuba, sob pena de um ataque sobre a ilha. Poucas vezes, durante todo o período da Guerra Fria, a perspectiva de um enfrentamento direto entre as duas superpotências pareceu tão próxima.

Kruschev foi obrigado a recuar, retirando os mísseis, mas o episódio deixou marcas que acentuaram as investidas de ambos os lados. Os EUA, temendo a disseminação do "perigo vermelho" no continente, lançaram a Aliança para o Progresso, um programa de ajuda econômica aos países da América Latina, objetivando ampliar a dependência destes em relação a Washington. Mais do que isso, os EUA passaram a apoiar golpes militares e a instalação de regimes ditatoriais, vistos como únicas armas eficazes na contenção da ameaça comunista.

Cuba, por sua vez, adotou uma política de "exportar" a revolução para outros países, por meio do apoio a movimentos guerrilheiros ou mesmo da criação de focos de combate em algumas regiões. Fez parte dessa política a criação, em 1967, da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), voltada a estimular a formação de focos guerrilheiros em algumas regiões. Essa política teve na figura de Ernesto "Che" Guevara seu maior ícone, morto na Bolívia, em 1967.

Em 1963, John Kennedy foi assassinado em Dallas, num episódio até hoje mal explicado. No ano seguinte, em função dos revezes de sua política externa, principalmente pela humilhação na questão dos mísseis cubanos, Kruschev foi derrubado do poder na URSS. Dessa forma, dois novos líderes assumiam o poder nas duas superpotências: Lyndon Johnson, que assumira após a morte de Kennedy, e Leonid Brejnev, o novo chefe de Estado da URSS.

Conjuntura norte-americana

Johnson completou o mandato de Kennedy até 1964 e foi eleito para o mandato de 1964 até 1968. Ele ampliou de forma intensa a intervenção armada dos EUA no Vietnã, além de procurar conter de modo mais efetivo o que era visto como a ameaça comunista, chegando a intervir militarmente na República de Santo Domingo, buscando deter o movimento de esquerda que ameaçava tomar o poder no país.

Ao mesmo tempo, internamente, teve que lidar com o crescente movimento de repulsa à participação na Guerra do Vietnã e com o crescimento do movimento negro, liderado pelo pastor Martin Luther King.

O agravamento das tensões internas, num momento particularmente rico em contestações que vinham de todos os lados, provocou o surgimento de grupos radicais como os Panteras Negras, negros muçulmanos que se opunham à política de Luther King, que, inspirado em Gandhi, defendia a não violência como forma de conquistar direitos sociais. Crescia também o movimento hippie, com tudo o que ele significou em termos de contestação aos valores da sociedade americana e ao engajamento dos EUA na guerra.

Esse mesmo radicalismo provocou ainda dois eventos traumáticos, os assassinatos de Robert Kennedy, irmão de John e candidato do Partido Democrata nas eleições presidenciais de 1968, e do próprio Martin Luther King, por um extremista branco.


Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:06:22 PM
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Guerra Fria - últimos anos

Do Sindicato Solidariedade à queda do Muro de Berlim

Gilberto Salomão*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
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Panfleto do sindicato polonês Solidariedade, 1981

Enquanto Jimmy Carter intensificava as negociações para limitar a produção de armas nucleares, a URSS estava às voltas com graves problemas econômicos internos e enfrentava contestações ao seu domínio dentro de seus satélites europeus.

Em 1979, começava a surgir na Polônia um movimento sindical, a partir da cidade de Gdansk, que deu origem ao sindicato Solidariedade, tendo como principal líder o operário Lech Walesa. Tratava-se de um movimento reivindicatório, por melhores condições de vida, e, ao mesmo tempo, político, questionando o modelo de gestão soviética e requerendo maior liberdade política.

Era a terceira grande contestação ao domínio soviético, depois da Hungria e da Tchecoslováquia. Mas, diferente das anteriores, essa ocorria num momento em que a capacidade da URSS de reagir já era significativamente menor, em função de suas crescentes dificuldades econômicas.

Mesmo assim, o governo soviético procurava tirar partido desse momento de indefinição da política externa norte-americana, buscando ampliar sua influência em algumas regiões. Em 1980, os soviéticos invadiram o Afeganistão, visando apoiar um governo comunista na região. Em represália, o governo Carter adotou sanções econômicas contra os soviéticos.

Entretanto, já era tarde para Carter reverter a sensação de que seu governo fora responsável pelo enfraquecimento da posição internacional dos EUA. O efeito disso foi sua derrota na eleição presidencial para o candidato republicano Ronald Reagan.

Governo Reagan

Representando um momento de regresso conservador da sociedade americana, Reagan foi fiel ao sentimento que o levou à presidência, iniciando um vigoroso endurecimento nas relações com a URSS, à qual ele por várias vezes referiu-se como o "império do mal", e buscando ampliar o papel dos EUA no cenário internacional, particularmente na Europa.

Fez parte dessa política a adoção de sanções severas contra a URSS, em represália à invasão do Afeganistão e à repressão ao movimento Solidariedade, e também a instalação de mísseis nucleares na Europa, visando reforçar as defesas da OTAN e intimidar seu adversário.

Paralelamente, a economia soviética dava sinais de claro esgotamento. Na primeira metade da década de 1980, o crescimento da economia caiu à taxa de meros 2% ao ano, contra uma população que crescia a índices de 2,5% e gastos militares sempre maiores.

A ineficiência da administração burocrática da economia era tal que a URSS passou, no início dos anos 1980, de maior exportadora de petróleo do mundo para importadora, mesmo contando com gigantescas reservas na Sibéria, as quais, entretanto, eram impossíveis de ser exploradas, dado o caráter obsoleto da tecnologia do país.

A morte de Brejnev, em 1982, substituído por Yuri Andropov (1982-84) e Konstanty Chernenko (1984-85) não trouxe qualquer alteração nesse quadro que apontava na direção do colapso econômico do país, com suas óbvias decorrências políticas e sócias.

Entretanto, também o governo Reagan sofria sérios revezes. Em 1986, a imprensa norte-americana denunciou que o governo, através da CIA, vendera armas ao governo xiita iraniano, para obter recursos para financiar a guerrilha anti-sandinista na Nicarágua. Cabe lembrar que, desde o episódio dos reféns norte-americanos no Irã, o Congresso aprovara sanções ao governo iraniano que impediam qualquer negociação com o país, quanto mais a venda de armas a um regime hostil.

Enfraquecido pelas denúncias e sofrendo o risco de impeachment, Reagan perdeu grande parte do apoio para manter sua política agressiva em relação a URSS, tanto mais que essa já não representava a ameaça de outros tempos.

Mikhail Gorbatchev, a Perestroika e a Glasnost

Outro dado contribuiu sensivelmente para essa mudança na belicosidade dos EUA. Em substituição a Chernenko, morto em 1985, assumia o poder na URSS um líder surpreendentemente jovem, se comparado a seus antecessores: Mikhail Gorbatchev.

Embora sempre tivesse sido um membro da burocracia dirigente, Gorbatchev era fruto de um novo momento, no qual o colapso da economia e a ineficiência da máquina burocrática não mais podiam ser ocultados. Herdando uma situação interna caótica, na qual a produção soviética era incapaz de sustentar as demandas do país em qualquer setor no qual a tecnologia fosse minimamente necessária, e às voltas com o risco de que a ineficiência administrativa provocasse a fome generalizada no país, Gorbatchev tinha clara a necessidade de amplas reformas em todos os níveis da vida do país.

Gorbatchev sabia, acima de tudo, que seriam necessários pesados investimentos na modernização tecnológica, o que requeria recursos que o país teria que tirar de algum setor. A única opção seria reduzir drasticamente as despesas monstruosas do Estado com o setor militar, o que implicava não apenas na redução da capacidade ofensiva do exército como também no desmantelamento da máquina repressiva interna, com o enfraquecimento de órgãos como a KGB, fundamentais para a repressão aos focos de descontentamento.

Assim, Gorbatchev tinha claro que seria impossível uma reestruturação econômica sem uma reestruturação política. Essa é a razão da indissociabilidade dos dois programas por ele estabelecidos: a Perestroika (reestruturação, utilizada no sentido econômico) e a Glasnost (transparência em russo, significando uma maior abertura política, com a liberalização do regime).

Gorbatchev empreendeu um amplo processo de desmontagem da estrutura repressiva, incluindo o fim do regime de partido único e a redução drástica dos poderes da KGB. Ao mesmo tempo, reduzia drasticamente a presença de tropas soviéticas nos países da Europa Oriental, reduzindo assim o controle soviético sobre eles.

Os efeitos foram imediatos, tanto interna quanto externamente. As reformas internas geravam oposição de todos os setores, da velha guarda do partido descontente com o que era visto como a negação do comunismo, e de setores que queriam um apressamento das reformas em direção à restauração pura e simples do capitalismo. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento da máquina militar, através da qual a URSS mantivera o domínio sobre o Leste Europeu, gerou um rapidíssimo processo de desmontagem da Cortina de Ferro.

Entre 1989 e 1991, todos os países do Leste Europeu passaram por revoluções internas que varreram os antigos governos comunistas apoiados pela URSS. Além de Hungria, Polônia, Tchecoslováquia, Bulgária e Albânia, casos mais graves ou emblemáticos foram representados pela Alemanha Oriental e pela Iugoslávia.

Na Alemanha Oriental, o colapso do regime foi atestado pela queda de Eric Honecker, ao mesmo tempo em que caía também aquele que fora o maior símbolo da Guerra Fria, o Muro de Berlim. Em 1991, a própria Alemanha Oriental deixava de existir, tendo sido unificada à Alemanha Ocidental.

Na Iugoslávia, o fim do governo Tito, ao mesmo tempo em que a URSS deixava de ter a força de outros tempos, provocou as mudanças mais violentas da região. A rígida centralização mantida pelo regime comunista foi eliminada, abrindo espaço às lutas nacionais que geraram a desintegração da federação e também uma série de conflitos nacionais, étnicos e religiosos. Esses conflitos geraram a independência da Eslováquia, da Croácia, da Bósnia-Herzegovina e também os movimentos separatistas na região de Kosovo.

Uma nova era se abria. Mesmo com a queda de Gorbatchev, originalmente a partir de um golpe desfechado pela direção do partido comunista, mas rechaçado por um amplo movimento social liderado por Boris Yeltsin, o fim do regime soviético era irreversível.

A derrota soviética foi largamente empregada como um símbolo do triunfo dos ideais capitalistas. A ausência de um adversário poderoso consolidou mais do que nunca a posição dos EUA no cenário mundial, posição que só encontra, atualmente, focos isolados de reação, como o fundamentalismo islâmico e algumas posturas de líderes como Hugo Chávez ou Evo Morales, incapazes entretanto de neutralizar a preponderância norte-americana e seus frutos mais diretos no campo econômico: o neoliberalismo e o processo de globalização.



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:05:34 PM
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Educar para transformar


O filósofo Mario Sergio Cortella fala das várias agruras da sociedade moderna sob a ótica da instituição escolar.


Por Sheyla Pereira*

A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. A frase é de um dos maiores pensadores da pedagogia do Brasil e do mundo, Paulo Freire, falecido em 1997. Com sua saga para levar o ensino e a consciência crítica aos mais necessitados, ele serve de inspiração para uma geração de professores. Um de seus discípulos é o filósofo, autor de livros como a “A Escola e o Conhecimento” e “Não nascemos prontos”, mestre e doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Educação (Currículo), Mario Sergio Cortella, de quem Freire foi orientador no mestrado.

Assim como Freire, Cortella enxerga na educação muitas saídas para problemas da sociedade. Porém, critica o fato de inúmeras famílias transferirem sua responsabilidade para as instituições escolares. Ele fala ainda da questão escola pública versus particular e como a educação está vinculada à ética, mídia, religião e tecnologia. Leia, a seguir, a entrevista com o filósofo.

Sexismos
Segundo o dicionário Houaiss, “preconceito ou discriminação baseada no sexo”. No texto, Mario Sergio Cortella utiliza a palavra sexismo para dizer que as propagandas de cerveja, em sua maioria, colocam a mulher como objeto de consumo.

Conhecimento Prático Filosofia – Há muito tempo, a escola deixou de lado sua função primeira de educar para assumir também o papel social. Dentro do contexto filosófico, qual o peso de cada instituição nessa formação?
Mario Sergio Cortella - Outro dia, um pai de aluno me perguntou: “qual o senhor acha que deve ser o papel da família para colaborar com a educação dos nossos filhos na escola?”. Eu disse a ele, com todo o respeito, que havia um equívoco na formulação da questão, porque não cabe à família colaborar com a escola na educação, mas exatamente o contrário, é a escola que colabora, a família é responsável. A escola assumiu muitas tarefas nos últimos 20 anos, especialmente a escola pública, porque ela é parte da rede de proteção social e, por isso, desempenha tarefas do Estado, entre elas a proteção à vida, segurança e liberdade dos indivíduos. Por isso, cabe sim à escola oferecer educação para o trânsito, ecológica, sexual e até alimentar. Mas não cabe ao Estado, via escola pública, substituir a responsabilidade que a família tem, a menos que ela esteja em situação de descuido total. Cabe à instituição promover a autonomia, a solidariedade e a formação crítica, mas a responsabilidade principal continua sendo da família e ela não pode se eximir disso.

CP Filosofia - Você defende que a escola pública traz mais benefícios aos indivíduos, já que, nas instituições particulares, há uma grande inclinação ao capitalismo e à concorrência. Mas todos nós sabemos que, na escola pública, as crianças ficam abandonadas à própria sorte...
MSC - Depende da escola. Uma parcela das escolas privadas tem um nível mercantil, no sentido puro e simples, outras, não. O foco não deve ser escola pública versus escola particular, mas sim escola boa versus escola ruim. Nós temos escolas públicas de nível bastante elevado e outras, precário. A mesma coisa vale para a escola privada. Porém, existe uma lista imensa das particulares que são facilmente ultrapassadas pelas públicas de nível mediano. Então, não podemos cair nessa armadilha. Vale lembrar que a escola privada no Brasil só representa 13% do total. Quando estamos falando em educação escolar no Brasil estamos nos referindo aos 87% da rede pública. Por isso, é necessário que os governantes tenham um compromisso real com a educação, com a realização de avaliações e exames periódicos, de maneira que o País possa dar os passos para a saída da indigência. Apesar de, muitas vezes, o compromisso que vários dizem ter com a educação ser meramente conveniente e eleitoral, nos últimos 15 anos, seja na gestão do Fernando Henrique Cardoso ou do Lula, demos início a esse processo. Fazer isso com eficiência, entretanto, exige parcerias com o mundo da sociedade privada, compromisso dos empresários, além da atenção de pais e mães como cidadãos. O que agrava a situação é a omissão de qualquer tipo.

CP Filosofia - Por mais que a família e a escola sejam atuantes na formação do indivíduo, não podemos renegar a relevância da mídia como fator de influência na vida das pessoas. E muitas vezes, por sinal, ela orienta de forma errada. Em sua opinião, qual a solução para esse dilema?
MSC - A mídia de natureza privada é majoritária no Brasil, mas, se nos referirmos aos meios de comunicação, ela é uma concessão do Estado. Por isso, cabe a ele, dentro dos níveis da democracia, fazer não a censura, mas exigir que sejam cumpridos os elementos indicados nessa concessão pública. Por outro lado, os meios de comunicação se sustentam à base de publicidade. Isso significa que há um papel forte dos proprietários da mídia para que ela caminhe em direção da ética e da decência e auxilie na elevação das condições de vida e de consciência de uma nação. Contudo, é necessário que o cidadão, se detectar em determinado tipo de mídia um encaminhamento negativo de valores, uma deformação dos conteúdos éticos, um consumismo e materialismo devastadores, boicote não só o veículo como os produtos que o financiam. Eu, por exemplo, não compro qualquer marca de cerveja que utilize sexismos em suas mensagens. Além de não comprar, divulgo a minha posição. Mas não basta que eu me recuse isoladamente, é preciso que eu junte mais gente nessa mesma lógica. Esta também é uma maneira de educar a mídia para que ela caminhe em uma direção de decência.

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Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 01:57:36 PM
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"Nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS", diz jornalista que cobriu a queda do muro

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

José Arbex Jr., único jornalista brasileiro na coletiva de imprensa em que foi anunciado o fim da barreira entre as Alemanhas


O jornalista José Arbex Jr, 52, era o único brasileiro dentre os mais de 300 correspondentes internacionais que acompanhavam a entrevista coletiva dada por Günter Schabowski, porta-voz do Partido Comunista Alemão, no dia 9 de novembro de 1989, após um congresso que reuniu PCs de toda a Europa.

A coletiva transcorria sem grandes novidades até que, no final, um jornalista, de forma despretensiosa, fez a pergunta que tornou pública uma informação que mudaria o curso da história: o governo da Alemanha Oriental, na resposta de Schabowski, anunciava que a passagem entre as "Alemanhas" através do muro de Berlim estaria liberada imediatamente. Era o princípio do fim da Guerra Fria.

Arbex, então correspondente da Folha de S. Paulo na União Soviética, acompanhou o antes, o durante e o depois da queda do muro nas ruas de Berlim. Vinte anos após o evento, na avaliação do jornalista, hoje docente no departamento de jornalismo da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), a queda do muro representou o fim do stalinismo, e não do socialismo. Aliás, para Arbex, nunca houve socialismo na Alemanha Oriental, nem na URSS.

Antes da queda do muro, Arbex atuou na imprensa clandestina contra o regime militar e em jornais sindicais. Formado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e doutor em História Social também pela USP, nos primeiros anos após a queda do muro o jornalista trabalhou ainda nas revistas "IstoÉ", "Caros Amigos" e no jornal "O Estado de S. Paulo".

Em entrevista ao UOL Notícias, o jornalista falou sobre o impacto da queda do muro entre o povo alemão, as consequências do fato histórico para a humanidade e o fracasso do capitalismo nas últimas duas décadas.

O muro de 155 km de extensão dividia Berlim em duas partes


UOL Notícias - Pode contar detalhes sobre a cobertura da queda do muro de Berlim?
José Arbex Jr. - No começo do segundo semestre de 1989 começou uma onda de milhares pessoas querendo sair da Alemanha Oriental rumo à Ocidental, saindo via Áustria, Hungria etc. Tudo isso aí evidentemente inserido no contexto da crise do bloco socialista, com a implantação da Perestroika [processo de abertura econômica] na União Soviética e ainda sob o impacto da desmoralização do socialismo após o massacre dos estudantes em Pequim (em 4 de junho de 1989, na Praça da Paz Celestial). Era situação de fim de festa. Sensação de que tudo estava desabando no bloco socialista. Eu fui cobrir a crise de jovens refugiados na União Soviética, cansados do regime de ditadura do partido único e iludidos com a possível chegada do capitalismo. Na época saiu uma nota nos jornais anunciando que o Partido Comunista da Alemanha convocaria um congresso de partidos comunistas em Berlim. Eu saquei que os caras não iriam fazer piquenique. Algo importante iria acontecer.

Aquele regime tinha se esgotado, mas ninguém sabia que poderia acabar ali. A queda do muro não era algo que dava para prever um mês antes. São essas coisas que acontecem na história.


Então mandei um telex para a Folha dizendo que eu queria ir para lá. Depois de muita negociação, fui para Berlim e encontrei uma cidade em plena efervescência. De lá, acompanhei a visita do [Mikhail] Gorbatchov, que claramente apoiava as manifestações de rua contra o regime socialista na Alemanha. Os estudantes foram perguntar ao Gorbatchov o que eles achavam do governo Erich Honecker (secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha), porque havia a possibilidade de o governo responder à agitação com um massacre semelhante ao de Pequim. E só não houve o massacre porque Gorbatchov afirmou que não apoiaria uma possível repressão. Ele disse: "o governo tem que mudar com a vida". Foi um claro recado que o Honecker não poderia governar do jeito que estava fazendo. A partir daí tudo saiu do controle.

UOL Notícias - E como foi o anúncio de que a circulação entre as Alemanhas seria liberada?
Arbex - Quando o Congresso dos partidos comunistas acabou, o Günter [Schabowski, porta-voz do Partido Comunista Alemão] deu uma coletiva, na qual foi dado um informe ameno. No final da coletiva, alguém perguntou se o pessoal que estava no Checkpoint Charlie (posto militar entre a Berlim ocidental e oriental) poderia passar para o outro lado do muro. Ele respondeu: "Como eu não falei isso ainda? A passagem está livre."

Pedaços do muro de Berlim pelo mundo

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Lá havia uns 300 correspondentes e só eu do Brasil. Depois da resposta, surpresos, os jornalistas ficaram olhando um para a cara do outro, desconfiados. Até que alguém perguntou novamente, e o Gunther repetiu a resposta. Todos corremos aos telefones e aparelhos de telex para avisar os jornais e depois fomos para o Checkpoint. Lá vimos muita gente passando para o lado ocidental. Começava um verdadeiro carnaval, uma grande festa, mas uma festa alemã, contida.

UOL Notícias - Foi então algo bem inesperado?
Arbex - Surpreendeu todo mundo. Estava claro que não havia outra saída para o bloco socialista. Aquele regime tinha se esgotado, mas ninguém sabia que poderia acabar ali. As pessoas podiam achar que ainda iria durar mil anos. A queda do muro não era algo que dava para prever um mês antes. São essas coisas que acontecem na história.

UOL Notícias - O que você sentiu do povo alemão na época? Como foi o choque entre as culturas?
Arbex - Sempre houve um investimento em transformar Berlim Ocidental em uma vitrine. De um lado [o oriental] havia os Trabant, um carro minúsculo, feio. Do outro lado, várias Mercedes, centros culturais, entre outros. O capitalismo transformou o lado ocidental em uma vitrine, o que despertou uma ilusão na juventude. Vou fazer uma analogia: quando estava em Moscou, em janeiro de 1990, foi inaugurada uma loja do McDonald's em plena praça Vermelha. Milhares de pessoas ficaram uma hora e meia na fila, sob uma temperatura de -20ºC, para comer um lanche. Aquilo era um símbolo. Hoje, o engraçado é que acontece mais ou menos um movimento contrário a isso na Alemanha. Há um grupo chamado "Nostalgie" que idealiza a Alemanha Oriental. Que a vê de forma idealizada. Se esquecem que houve uma ditadura stalinista, com uma polícia política que implantava o terror.

Capa da Folha de S. Paulo em 10 de novembro de 1989, dia seguite à queda do Muro de Berlim


UOL Notícias - E nos dias pós-queda? A sensação de euforia passou rápido?
Arbex - A euforia durou muito. Havia um cansaço com o Partido Comunista. A euforia começou a acabar uns seis meses depois, quando começou a se discutir concretamente a reunificação. Havia uma indústria avançada na Alemanha Ocidental e obsoleta na Oriental. Quem iria arcar com os custos da reunificação? Também havia o problema do emprego. Como empregar quem estava acostumado com o padrão estável do socialismo. Como as pessoas que tinham educação e saúde garantidas no regime socialista seriam tratadas em um sistema de mercado que não garante nada, sobretudo emprego? Isso causou uma grande polêmica. Na época, a extrema direita dizia que a Alemanha Ocidental não tinha nada a ver com os alemães orientais e que, portanto, não deveria arcar com os custos. E isso gerou uma discussão de até que ponto havia um povo alemão. Será que os anos de separação não teriam criado dois povos diferentes? São questões que não se resolveram até hoje. Atualmente, no parlamento alemão, grupos de extrema direita culpam gente da Alemanha Oriental pela crise. Os anos 90 foram muito duros para a Alemanha.

Não existe muro capaz de impedir que a revolta popular se manifeste.


UOL Notícias - Qual impacto a queda do muro trouxe no modo de fazer jornalismo?
Arbex - A queda do muro permitiu a conexão eletrônica entre os países, algo que estava incipiente no mundo capitalista e incorporou a esfera socialista. Antes da queda havia um monte de restrições à compra de computadores no Leste Europeu. Se a Polônia quisesse comprar computadores, equipamentos de ponta, essas máquinas não poderiam ser comercializadas porque seria vender tecnologia para o inimigo. Após a queda, o Leste Europeu foi incorporado para o mundo capitalista. A partir daí tudo mudou, a internet se desenvolveu. O jornalismo teve que mudar seus paradigmas, até então presos à fórmula da Guerra Fria, do Ocidente versus Oriente. O jornalismo teve também que formular sua própria linguagem.

As pessoas ficaram com a ideia que o socialismo fracassou, mas o que elas não sabem é que nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS. O que havia era um regime autoritário, controlado pelo Estado, com um retórica marxista, socialista, mas sustentado por ditaduras corruptas, partidos únicos, algo que talvez pudéssemos chamar de "capitalismo de Estado".


UOL Notícias - Resumidamente, qual a melhor e a pior contribuição que a queda trouxe para a humanidade?
Arbex - A melhor foi mostrar que não existe tirania capaz de manter o muro de pé. O regime da Europa ocidental era autoritário, forte, com uma polícia política eficiente, mas isso não impediu que o muro fosse para baixo. E isso deveria servir de lição para os Estados Unidos, que construíram um muro na fronteira com o México; para Israel, que colocou um muro para separar a Palestina; assim como o que vêm acontecendo nas favelas do Rio, onde muros segregam as comunidades do resto da cidade. Então eu acho que a maior contribuição foi essa: não existe muro capaz de, no longo prazo, impedir que a revolta popular se manifeste.

Já a pior contribuição da queda do muro foi desmoralizar uma ideia, uma proposta, que é o socialismo. As pessoas, em geral, ficaram com a ideia que o socialismo fracassou, mas o que elas não sabem é que nunca houve socialismo na Alemanha, nem na URSS. O que havia era um regime autoritário, controlado pelo Estado, com um retórica marxista, socialista, mas sustentado por ditaduras corruptas, partidos únicos, algo que talvez pudéssemos chamar de "capitalismo de Estado".

Vinte anos depois, está provado que o capitalismo não oferece mais saída. É um sistema que não é capaz de alimentar os seres humanos, que está falido. O capitalismo conduz à miséria, fome, degradação ambiental, desemprego, recessão...


As pessoas acreditaram no capitalismo, mas hoje são um bilhão de famintos. Existe um desejo de o mundo ser transformado, mas a queda do muro e a frustração posterior com os rumos do capitalismo deixaram um legado de desilusão. E isso é a pior coisa que poderia ter acontecido.

UOL Notícias - Então, a queda do muro representou, na sua avaliação, o fim do stalinismo, não do socialismo?
Arbex - Num certo sentido sim. Eu não acho que a esquerda deveria ter defendido o regime da Alemanha Oriental, corrupto, truculento... Eu jamais defenderia um regime desses, mas, por outro lado, querendo ou não, a derrota desse regime acabou sendo a derrota da perspectiva socialista. A imensa maioria da população mundial acha que o socialismo é uma grande porcaria, e isso é uma derrota. Por outro lado, 20 anos depois, está provado que o capitalismo não oferece mais saída. É um sistema que não é capaz de alimentar os seres humanos, que está falido. Nesse sentido a tarefa hoje está mais fácil. O capitalismo conduz à miséria, fome, degradação ambiental, desemprego, recessão... Uma série de dados nos mostram que o capitalismo está num impasse.

 



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 08:29:02 AM
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 EDUCAÇÃO?

Kassab corta vagas no ensino infantil; há 28 mil na espera

da Folha Online

A Prefeitura de São Paulo reduziu em 17 mil o número de matrículas oferecidas para crianças da pré-escola (queda de 5%) nos últimos dois anos. A informação é dos repórteres Fábio Takahashi, Evandro Spinelli e Anna Carolina Cardoso publicada na edição desta sexta-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

Marlene Bergamo/Folha Imagem
Ingrid não conseguiu uma vaga em escola da Brasilândia; SP tem 28 mil crianças na espera
Ingrid não conseguiu uma vaga em escola da Brasilândia; SP tem 28 mil crianças na espera

Segundo o texto, a gestão Gilberto Kassab (DEM) exigiu que as entidades transferissem suas vagas da pré-escola (4 a 6 anos) para as creches (0 a 3), onde o deficit e a pressão por novas vagas são maiores. Atualmente, existem 28,5 mil crianças na fila de espera. Faltam vagas em 92 dos 96 distritos da cidade.

O secretário de Educação, Alexandre Schneider, diz que o impacto da mudança "é residual", pois, paulatinamente, os alunos atendidos pelos convênios têm sido transferidos para a rede da própria prefeitura. O problema, diz, não é a transferência de vagas da pré-escola para as creches.

Entidades que fazem convênios com a prefeitura e as que acompanham as políticas educacionais afirmam, porém, que a mudança nos acordos causou o encolhimento do pré. "É um absurdo aumentar as vagas nas creches às custas da redução nas pré-escolas", disse Salomão Ximenes, coordenador da ONG Ação Educativa.



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 03:50:48 PM
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MOMENTO HUMOR

 



Escrito por M&G EDUCAÇÃO às 06:50:40 PM
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